Yishaq — O romance que devolve a Yasuke seu continente perdido
Yasuke além do mito
África, memória e apagamento histórico
Escrever este livro foi, antes de tudo, um ato de escuta. Não de uma memória pessoal, mas de uma memória coletiva — esgarçada pelo tempo, abafada por séculos de silêncio, ainda assim pulsante. Entre a África e o Japão do século XVI, reencontrei não apenas personagens históricos, mas também um espelho da condição humana: o desejo de atravessar mundos, resistir ao apagamento e preservar, mesmo na adversidade, um sentido de dignidade.
A figura de Yasuke, conhecido no Japão como o samurai negro a serviço de Oda Nobunaga, foi meu ponto de partida. Mas logo compreendi que ele não era apenas um personagem singular perdido nas crônicas estrangeiras. Era, na verdade, o vértice visível de uma travessia muito mais longa, iniciada nas nascentes do Nilo, entre os reinos de Alódia e Fazughli, e moldada por civilizações africanas cristãs que o mundo moderno insistiu em esquecer. Yishaq: O Guerreiro Negro de Soba nasceu, portanto, do desejo de devolver espessura humana a essa trajetória, tantas vezes reduzida à curiosidade exótica de um “samurai africano”.
Nos últimos anos, Yasuke voltou ao centro da cultura pop e da historiografia internacional. Biografias como African Samurai (Thomas Lockley & Geoffrey Girard, 2019) reconstruíram com vigor documental o período japonês do personagem, apresentando ao grande público o primeiro “samurai estrangeiro” e suas passagens mais célebres — do encontro com Nobunaga ao episódio de Honnō-ji. Na França, Yasuké: Le samouraï noir (Serge Bilé, 2018) seguiu o mesmo caminho, e, no Brasil, surgiram títulos introdutórios e infantojuvenis que, embora essenciais para a difusão do tema, concentram-se majoritariamente no ciclo japonês, com pouca ou nenhuma atenção ao pano de fundo africano ou ao arco espiritual do protagonista.
Nesse cenário, Yishaq oferece algo diferente e necessário. O romance reconstrói o continente anterior de Yasuke com uma ambição rara na ficção histórica em língua portuguesa. A narrativa nasce na antiga Núbia, atravessa Alódia e Fazughli, incorpora a cosmovisão dos povos Dinka (com Nhialic e os salmos em geʿez), percorre Moçambique, Goa e Lisboa, e só então irrompe no Japão Sengoku com toda a carga de sentido acumulada. Yasuke deixa de ser um fenômeno isolado em Kyōto para se tornar, enfim, um personagem transcontinental — corpo, memória e fé em movimento.
Além da escala, o romance propõe uma estrutura narrativa original: toda a história é confiada à voz do jesuíta Alessandro Valignano, já no fim da vida, que guarda um alforje com as memórias de Yasuke escritas em copta, geʿez, português, latim e japonês. Ao transmiti-las oralmente a um jovem africano, ele se recusa a permitir que a Europa “aplane” a voz do protagonista. A escolha não é apenas estética, mas ética: o livro entrelaça memória oral africana e documentação luso-japonesa como dois fios de uma mesma verdade — contrastantes, mas inseparáveis.
Uma abertura cinematográfica e erudita, situada em Macau, no Natal de 1605, no Colégio de São Paulo — já estabelecendo o eixo África–Lisboa–Japão e apresentando Valignano, a ponte real que ligou Yasuke à missão jesuíta e ao arquipélago japonês.
Um arcabouço histórico robusto, com capítulos temáticos e contexto amplo (Núbia, Alódia, Fazughli, cristianismo oriental, missão jesuíta, rituais africanos, Japão Sengoku, shogunato, shinobi, sexualidade, ética samurai...), útil tanto para o leitor geral quanto para o pesquisador.
Uma poética da memória resistente, onde o romance se assume ficcional, mas firma um pacto com a verdade humana do passado: “a memória [...] pode atravessar desertos e oceanos, séculos e impérios”.
Comparado às biografias internacionais, que se concentram no ciclo japonês e na ascensão cortesã de Yasuke, Yishaq desloca o centro de gravidade do personagem. Em vez de um herói que “nasce” ao pisar Kyūshū, vemos um homem cuja dignidade foi forjada entre igrejas coptas de barro, salmos em geʿez e os códigos de honra dos pastores do Vale do Nilo. Isso representa um ganho simbólico e narrativo decisivo: a história deixa de ser “curiosa” e passa a ser necessária. Porque explica, com raízes e lógica interna, como um africano cristão pôde tornar-se guarda de um daimyō no extremo oposto do mundo sem perder o fio de sua origem.
O diálogo de Yishaq com a bibliografia existente é, portanto, ao mesmo tempo complementar e transformador: onde African Samurai documenta o Japão, Yishaq ilumina o que veio antes e o que veio depois — a África cristã oriental, as rotas do Império Português, os silêncios coloniais, o trânsito missionário e a tensão entre fé e política. Para o leitor que chegou a Yasuke por meio do anime, da série da Netflix ou da literatura juvenil, este romance oferece algo que essas obras não pretendem oferecer: lastro histórico, imersão sensorial e consciência crítica. Pesquisa, estética e humanidade respiram juntas em cada página.
Em uma frase: Yishaq: O Guerreiro Negro de Soba é o romance que devolve a Yasuke o seu continente perdido e transforma um ícone em história total. África, Europa e Japão coexistem na mesma travessia; voz oral e arquivo escrito se inflam no mesmo fogo; mito e documento se reconciliam num só corpo narrativo.
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Comentários
Quando a narrativa se pretende histórica ou biográfica, o texto costuma insistir na estranheza causada por um homem negro no círculo de poder do Japão feudal. Quando é ficcional, muitas vezes descamba para a fantasia excessiva, com elementos tão distantes da experiência humana que o personagem acaba banalizado, transformado em caricatura ou mesmo em tema de videogame de ação.
Este livro segue um caminho radicalmente diferente. Ele não se limita a narrar a presença do samurai africano na corte de Oda Nobunaga de forma biográfica, nem recorre à ficção para esvaziar o personagem. Pelo contrário: reconstrói sua origem humana, cultural e espiritual, inserindo-o num amplo percurso que atravessa antigas civilizações africanas, rotas atlânticas e asiáticas, até alcançar o Japão do século XVI.
Tudo isso é feito por meio de uma narrativa extremamente bem escrita e envolvente, rica em descrições a ponto de o leitor se sentir nos reinos cristãos da África Oriental, na Europa e no Japão do século XVI. Achei o livro primoroso, tanto pela maneira como trabalha o contexto histórico e o personagem quanto pelo estilo literário. Foi, para meu próprio espanto, um dos melhores livros que li nos últimos tempos.
Confesso que, quando uma amiga comentou sobre a obra e me disse do que se tratava, torci o nariz, imaginei algo próximo de uma literatura juvenil ou superficial por conta de tanta coisa ruim nesse estilo que produziram sobre o personagem central. A surpresa foi enorme: encontrei uma história densa, épica, madura e cheia de nuances.
O grande diferencial do romance está justamente nesse deslocamento de perspectiva. Lagrotta rompe com leituras eurocêntricas ou nipocêntricas e propõe uma visão africana da história global do século XVI, tratando o mundo como um sistema interconectado entre a Núbia no nordeste africano, Moçambique na costa oriental, a costa ocidental Africana durante as navegações, Portugal, Goa, Macau e Japão. Nele, Yishaq não é uma “página em branco” moldada pela missão jesuíta ou pelo clã japonês dos Oda, mas um homem com cosmologia própria, cuja formação nilótica física, ética e espiritual dialoga de maneira orgânica com o código samurai.
A escrita reflete o rigor de um pesquisador que apesar de atuar em outra área (saúde), sustenta o romance por sólida pesquisa histórica, antropológica e biológica. O autor evita o heroísmo fantasioso e constrói um realismo denso ao abordar temas como as condições sanitárias das viagens marítimas, a logística das guerras do período Sengoku, as tensões políticas da Companhia de Jesus, conflitos espirituais do personagem e a brutalidade pragmática da unificação japonesa. Isso confere à narrativa uma verossimilhança rara em obras sobre Yasuke.
Outro ponto forte é o tratamento dado à espiritualidade. A formação cristã africana de Yishaq, marcada pela tradição copta e pelos valores dinka, não é apagada pelo catolicismo europeu ou pelo xintoísmo japonês, mas constantemente confronta e questiona essas estruturas religiosas, enriquecendo o conflito interno do personagem. Da mesma forma, a relação com Oda Nobunaga é construída sem maniqueísmos não há exotização extrema do personagem nem romantização exacerbada de seus feitos, muito menos realismo fantástico, mas um encontro político e humano entre dois líderes moldados pela guerra.
Ao final, Yishaq se afirma como muito mais que uma biografia romanceada. É um romance de descolonização da memória, que resgata a sofisticação e interação cultural das civilizações cristãs, islâmicas e pagãs africanas do Nilo e nordeste da África, devolvendo ao samurai negro sua condição de sujeito histórico complexo. Entre as muitas versões existentes sobre Yasuke, a obra de Marcos Lagrotta se diferencia por profundidade, rigor e respeito, tanto à história quanto ao leitor.
Um dos melhores livros de autores atuais que já li.
Fiquei impressionado com o realismo, profundidade e riqueza de detalhes históricos, sobretudo considerando que o autor não é historiador. Refletindo claramente rigor metodológico oriundo de sua carreira como pesquisador na área biomédica, transposto para a pesquisa histórica, no uso criterioso do método investigativo, conferindo verossimilhança aos personagens e cenários. O livro mergulha em fontes africanas, portuguesas e japonesas, atrelando os eventos históricos aos contextos sociais, culturais e até biológicos da época, culminando na construção de ambientes e personagens densos, críveis e vívidos para o leitor.
Para além da reconstituição histórica, a narrativa explora temas universais como resiliência, identidade e a complexidade das relações humanas, o que fortalece a conexão emocional com o leitor. Essa combinação entre olhar científico e sensibilidade literária resulta num romance rico e envolvente, demonstrando que a paixão pela história aliada à disciplina na pesquisa, mesmo que outra área do conhecimento, pode gerar literatura de altíssima qualidade, independentemente da formação do autor.
Diferente de narrativas que se concentram no período japonês, frequentemente romantizando a figura do “samurai negro de Oda Nobunaga”, o autor investe tempo significativo na sua origem dinka e na reconstrução do Reino de Alódia e sua capital Soba, terra natal proposta para Yishaq. Escolha que parece calçada em pesquisas etnográficas e históricas, oferecendo um entendimento profundo das dinâmicas africanas e das interações com os colonizadores portugueses, antes mesmo da chegada dele ao Japão. Sendo o mais assertivo no que diz respeito à origem africana de Yasuke.
Ao detalhar a vida pregressa e as motivações de Yasuke em sua terra natal, o autor o desmistifica como uma figura fantástica ou um apêndice da história japonesa, apresentando-o como um indivíduo de identidade complexa e multicultural. Enquanto muitos autores optam por uma origem moçambicana, devido às rotas comerciais portuguesas, ele fundamenta sua narrativa de forma mais consistente com as descrições físicas históricas. Já que segundo os registros japoneses e europeus, Yasuke era um homem com quase dois metros de altura e pele extremamente escura, características típicas de povos sudaneses, particularmente dos dinka.
Ao situar a origem do personagem no Reino cristão de Alódia, uma civilização africana em declínio no século XVI, o autor resgata um contexto histórico frequentemente negligenciado. Ajudando a explicar por que Yasuke já possuía uma visão de mundo complexa, domínio da escrita e certa familiaridade com ritos e estruturas religiosas cristãs, o que teria facilitado seu trânsito entre os jesuítas como homem livre e a sua inserção na elite japonesa. Fugindo assim do clichê do “escravo sem passado”, apresentando um homem portador do legado de uma das civilizações culturalmente mais ricas da África, tornando a narrativa autêntica e menos eurocêntrica.
A conexão entre a etnia dinka, o colapso do Reino de Alódia e as descrições físicas de Yasuke é o grande diferencial da obra. Mais do que preencher lacunas negligenciadas em outros livros, o autor realiza uma reparação histórica, devolvendo a Yasuke complexidade cultural e profundidade humana. É fascinante ver como o ele uniu dados físicos, contexto geopolítico e investigação histórica numa narrativa coesa e convincente. Para quem aprecia esse nível de rigor e realismo, vale a pena acompanhar as futuras publicações dele.