Passos — Um romance sobre o Brasil que se constrói caminhando

Capa da segunda edição do romance histórico-social “Passos”, de Marcos Lagrotta (Marcos Thadeu Fernandes Lagrotta)


Imigração, escravidão e reformas urbanas no Rio de Janeiro entre o Império e a República

Passos é um romance histórico sobre imigração italiana e memória social, que retrata e as transformações urbanas do Brasil no século XIX, entre o Império e a Primeira República

Há romances que contam uma história. E há romances que nos fazem caminhar por dentro dela.

Passos, pertence à segunda categoria. Não é apenas um romance de época, nem uma simples saga familiar. É uma narrativa que atravessa gerações para revelar, por dentro, como o Brasil moderno foi sendo construído — entre promessas de progressodesigualdades profundas e vidas empurradas para as margens da história oficial.

Desde as primeiras páginas, deixo claro que ele nasce do encontro entre documentos, memórias e silêncios. Essa combinação confere à narrativa uma densidade rara: o leitor sente que está diante de uma ficção que respira realidade, que dialoga com o passado não como nostalgia, mas como ferida ainda aberta.

A história de Passos começa antes mesmo do Brasil. Ela se conecta diretamente às contradições da Europa do século XIX, especialmente ao processo de unificação italiana — o Risorgimento. Longe da imagem romantizada de glória nacional, o romance expõe seu lado mais cru: fome, desigualdade e deslocamento forçado.

Cena simbólica de imigração europeia no final do século XIX, associada ao romance “Passos”, de Marcos Lagrotta (Marcos Thadeu Fernandes Lagrotta)

No prólogo, dois irmãos deixam as montanhas da Basilicata. Não partem movidos por aventura, mas por necessidade. A terra já não sustenta, o futuro se fecha, e a travessia do oceano surge como última aposta.

Ao chegarem ao Brasil — ainda marcado pela escravidão e pelas promessas da modernidade — tentam reconstruir suas vidas. Um deles encontrará o amor onde jamais imaginaria. Mas o país que se diz em transformação não perdoa quem desafia as hierarquias do sangue, da cor e do poder.

Paralelamente, outra família de imigrantes luta por sobrevivência nas ruas do Rio de Janeiro, em meio a cortiçosmiséria esperança. Essas trajetórias não correm isoladas: elas se cruzamse chocam e se refletem, compondo um mosaico humano de perdasescolhas e resistência.

Enquanto acompanha seus personagens, Passos reconstrói com precisão o Brasil do Segundo Reinado e da transição para a República. É um país que se moderniza rapidamente: ferrovias, telégrafos, navios a vapor, imprensa em expansão. Mas essa modernização não chega para todos.

O romance faz um movimento essencial: desce dos palácios para as ruas. Mostra um Rio de Janeiro tenso, contraditório, marcado por crescimento desordenado, epidemias, cortiços superlotados e uma população excluída dos projetos oficiais de “civilização”.

A cidade que surge em Passos é bela e brutal ao mesmo tempo. Um espaço onde imigrantes pobres e ex-escravizados disputam trabalho, moradia e dignidade, em um cenário que insiste em empurrá-los para fora do quadro.

Paisagem urbana marcada pela pobreza e pela exclusão social, tema central do romance histórico-social “Passos”, de Marcos Lagrotta (Marcos Thadeu Fernandes Lagrotta)

Um dos pontos mais fortes do romance está na forma como transforma episódios históricos em narrativa viva. As reformas urbanas do final do século XIX — vendidas como símbolo de progresso — aparecem sob outra luz: a da exclusão.

Morro do Castelo, tomado por cortiços. A demolição do famoso Cabeça de Porco, em 26 de janeiro de 1893, com apoio militar e aplausos da imprensa. Famílias desalojadas, vidas desfeitas, gente empurrada para encostas e margens.

É nesse processo que surgem as primeiras favelas cariocas, como o Morro da Providência, ocupado por soldados vindos da Guerra de CanudosPassos amarra esses acontecimentos à trajetória de seus personagens, mostrando o efeito dominó da urbanização excludente.

Ao mesmo tempo, o romance mergulha na região portuária, na chamada Pequena África — território de memória, resistência e cultura. Ali nascem formas de convivência, musicalidade, religiosidade e identidade que moldariam a alma do Rio de Janeiro e do Brasil.

Passos não fala apenas da imigração italiana. Ele fala do encontro — e do atrito — entre imigrantes pobres de diversas origens e negros recém-libertos, forçados a disputar espaço em uma cidade que nunca foi pensada para incluí-los.

Mostra como o Brasil substituiu a escravidão por um trabalho supostamente livre, mas manteve intactas muitas de suas estruturas: racismodesigualdaderepressão policial e exclusão social.

Rio de Janeiro no final do século XIX, cidade em transformação às vésperas das reformas urbanas, tema central do romance “Passos”, de Marcos Lagrotta (Marcos Thadeu Fernandes Lagrotta) F

Ainda assim, o romance não se entrega ao pessimismo. Ele lembra que esses grupos, mesmo marginalizados, foram agentes invisíveis da construção da cidade. Trabalharam, criaram cultura, estabeleceram redes de apoio, deixaram marcas profundas — mesmo quando seus nomes não entraram nos livros de história.

Ao longo de três gerações, Passos constrói uma saga humana feita de escolhas difíceis, perdas irreversíveis e tentativas insistentes de recomeço. É um romance sobre amor proibido, conflitos familiares e sobrevivência — mas, sobretudo, sobre pertencimento.

No fim, a frase que ecoa é simples e poderosa:“Cada passo que deixamos na terra… é único.”

Ler Passos é caminhar pelo Brasil que se forma entre o Segundo Reinado e a Primeira República. Um país que promete progresso, mas cobra caro por ele. Um país feito de passos anônimos — que, juntos, moldaram tudo o que somos.

Se você busca um romance envolvente, historicamente rigoroso e profundamente humanoPassos é um convite a olhar o passado com outros olhos — e a refletir sobre os caminhos que ainda estamos trilhando.

Capa do romance histórico-social Passos, de Marcos Lagrotta, sobre a imigração italiana, a escravidão e a formação do Brasil urbano no Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do século XX.

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Comentários

Helena Ramos disse…
É sempre instigante ver como trajetórias aparentemente distintas podem se complementar. Na atuação de Marcos Lagrotta (Marcos Thadeu Fernandes Lagrotta) como pesquisador e gestor na área da saúde pública, reconhecemos o mesmo rigor, clareza e senso crítico que marcam sua produção literária. Sua escrita criativa, especialmente no campo da ficção histórica, revela um domínio narrativo e uma capacidade analítica que dialogam diretamente com sua atuação técnica e profissional na saúde coletiva. Em todos os campos, tanto na literatura quanto na pesquisa acadêmica e na gestão pública há método, densidade intelectual e compromisso com a realidade social. Um exemplo raro de como pesquisa, imaginação histórica e prática institucional podem caminhar juntas, enriquecendo-se mutuamente.
Muito mais que um romance envolvente e repleto de história, Passos, é uma obra sensível que nos remete a memória histórica da construção e da formação da diversidade étnica e cultural do Rio de Janeiro. O autor nos convida a refletir sobre a trajetória humana, as escolhas feitas ao longo do caminho e o significado de seguir em frente apesar das dificuldades, com uma escrita simples, porém carregada de emoção a cada "passo" da leitura.
Carlos Gabriel disse…
O livro mostra, de verdade, em quem construiu a cidade e o país, e em como há muito sangue e muita presença negra não só nas lavouras, mas também na luta diária pela sobrevivência no Brasil urbano. O Rio que aparece em Passos de fato não é o dos cartões-postais: é o da rua, do cortiço, da epidemia, do trabalho pesado e da exclusão “civilizatória” vendida como progresso.

E isso importa porque o legado cultural mais marcante do Brasil vem muito desse chão, só que quase nunca figura nas narrativas oficiais. Ao mesmo tempo, os imigrantes pobres (italianos e de outras origens) entram nesse cenário como mão de obra barata, enfrentando miséria e exploração, e acabam se misturando a esse amálgama social e cultural que a história costuma simplificar. O que eu achei mais interessante é que o romance não fica restrito ao “eixo italiano”: ele usa esse eixo como centro, mas abre o quadro para mostrar o convívio e o atrito entre imigrantes pobres de várias origens e negros recém-libertos, todos disputando trabalho, moradia e dignidade, mas ao mesmo tempo se misturando, numa cidade que não foi pensada para incluí-los.

O livro acerta em cheio quando coloca as reformas urbanas sob a luz da exclusão: a demolição do cortiço Cabeça de Porco (26 de janeiro de 1893), famílias desalojadas e empurradas para as margens; e, nesse efeito dominó, o surgimento das primeiras favelas, como a Providência, ligada ao pós-Canudos. E quando a narrativa desce para a região portuária e para a Pequena África, dá pra sentir como memória, o quanto cultura e resistência negra foram construindo a alma do Rio e do Brasil, apesar de tudo.

Como leitor (e estudante de Letras), eu gostei muito de como o romance conecta história, memória e literatura sem virar aula, sem pesar no didatismo. É envolvente, humano, e ao mesmo tempo deixa claro um ponto que fica ecoando: o Brasil “moderno” se fez com passos anônimos e muitos desses passos foram negros, mas continuam fora do quadro oficial.
Terminei Passos com o coração e a mente em movimento. Este romance não é apenas mais uma narrativa de época, é um convite para caminhar por dentro da formação do Brasil, sentindo cada pedra, cada passo, cada vida que ficou à margem da história. A forma como o autor entrelaça vidas de imigrantes, ex-escravizados e outros personagens marginalizados com os grandes processos de transformação urbana na Cidade do Rio de Janeiro desde o final do Brasil imperial até a primeira república, cria uma narrativa que respira humanidade e complexidade. O que mais me tocou foi a maneira como o livro transforma episódios históricos em experiências vivas. Ao mesmo tempo que aprendemos sobre as reformas urbanas e a exclusão social, sentimos o peso da esperança, da resistência e da busca por pertencimento de pessoas que não tiveram seus nomes registrados nos livros de história. Passos é uma leitura essencial pra quem ama literatura que educa e transforma. Um verdadeiro mosaico humano do Brasil moderno em construção. Mais do que recomendado!

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