Passos — Um romance sobre o Brasil que se constrói caminhando
Imigração, escravidão e reformas urbanas no Rio de Janeiro entre o Império e a República
Passos é um romance histórico sobre imigração italiana e memória social, que retrata e as transformações urbanas do Brasil no século XIX, entre o Império e a Primeira República.
Há romances que contam uma história. E há romances que nos fazem caminhar por dentro dela.
Passos, pertence à segunda categoria. Não é apenas um romance de época, nem uma simples saga familiar. É uma narrativa que atravessa gerações para revelar, por dentro, como o Brasil moderno foi sendo construído — entre promessas de progresso, desigualdades profundas e vidas empurradas para as margens da história oficial.
No prólogo, dois irmãos deixam as montanhas da Basilicata. Não partem movidos por aventura, mas por necessidade. A terra já não sustenta, o futuro se fecha, e a travessia do oceano surge como última aposta.
Ao chegarem ao Brasil — ainda marcado pela escravidão e pelas promessas da modernidade — tentam reconstruir suas vidas. Um deles encontrará o amor onde jamais imaginaria. Mas o país que se diz em transformação não perdoa quem desafia as hierarquias do sangue, da cor e do poder.
Paralelamente, outra família de imigrantes luta por sobrevivência nas ruas do Rio de Janeiro, em meio a cortiços, miséria e esperança. Essas trajetórias não correm isoladas: elas se cruzam, se chocam e se refletem, compondo um mosaico humano de perdas, escolhas e resistência.
Enquanto acompanha seus personagens, Passos reconstrói com precisão o Brasil do Segundo Reinado e da transição para a República. É um país que se moderniza rapidamente: ferrovias, telégrafos, navios a vapor, imprensa em expansão. Mas essa modernização não chega para todos.
O romance faz um movimento essencial: desce dos palácios para as ruas. Mostra um Rio de Janeiro tenso, contraditório, marcado por crescimento desordenado, epidemias, cortiços superlotados e uma população excluída dos projetos oficiais de “civilização”.
A cidade que surge em Passos é bela e brutal ao mesmo tempo. Um espaço onde imigrantes pobres e ex-escravizados disputam trabalho, moradia e dignidade, em um cenário que insiste em empurrá-los para fora do quadro.
Um dos pontos mais fortes do romance está na forma como transforma episódios históricos em narrativa viva. As reformas urbanas do final do século XIX — vendidas como símbolo de progresso — aparecem sob outra luz: a da exclusão.
O Morro do Castelo, tomado por cortiços. A demolição do famoso Cabeça de Porco, em 26 de janeiro de 1893, com apoio militar e aplausos da imprensa. Famílias desalojadas, vidas desfeitas, gente empurrada para encostas e margens.
É nesse processo que surgem as primeiras favelas cariocas, como o Morro da Providência, ocupado por soldados vindos da Guerra de Canudos. Passos amarra esses acontecimentos à trajetória de seus personagens, mostrando o efeito dominó da urbanização excludente.
Ao mesmo tempo, o romance mergulha na região portuária, na chamada Pequena África — território de memória, resistência e cultura. Ali nascem formas de convivência, musicalidade, religiosidade e identidade que moldariam a alma do Rio de Janeiro e do Brasil.
Passos não fala apenas da imigração italiana. Ele fala do encontro — e do atrito — entre imigrantes pobres de diversas origens e negros recém-libertos, forçados a disputar espaço em uma cidade que nunca foi pensada para incluí-los.
Mostra como o Brasil substituiu a escravidão por um trabalho supostamente livre, mas manteve intactas muitas de suas estruturas: racismo, desigualdade, repressão policial e exclusão social.
Ainda assim, o romance não se entrega ao pessimismo. Ele lembra que esses grupos, mesmo marginalizados, foram agentes invisíveis da construção da cidade. Trabalharam, criaram cultura, estabeleceram redes de apoio, deixaram marcas profundas — mesmo quando seus nomes não entraram nos livros de história.
Ao longo de três gerações, Passos constrói uma saga humana feita de escolhas difíceis, perdas irreversíveis e tentativas insistentes de recomeço. É um romance sobre amor proibido, conflitos familiares e sobrevivência — mas, sobretudo, sobre pertencimento.
No fim, a frase que ecoa é simples e poderosa:“Cada passo que deixamos na terra… é único.”
Ler Passos é caminhar pelo Brasil que se forma entre o Segundo Reinado e a Primeira República. Um país que promete progresso, mas cobra caro por ele. Um país feito de passos anônimos — que, juntos, moldaram tudo o que somos.
Se você busca um romance envolvente, historicamente rigoroso e profundamente humano, Passos é um convite a olhar o passado com outros olhos — e a refletir sobre os caminhos que ainda estamos trilhando.
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Comentários
E isso importa porque o legado cultural mais marcante do Brasil vem muito desse chão, só que quase nunca figura nas narrativas oficiais. Ao mesmo tempo, os imigrantes pobres (italianos e de outras origens) entram nesse cenário como mão de obra barata, enfrentando miséria e exploração, e acabam se misturando a esse amálgama social e cultural que a história costuma simplificar. O que eu achei mais interessante é que o romance não fica restrito ao “eixo italiano”: ele usa esse eixo como centro, mas abre o quadro para mostrar o convívio e o atrito entre imigrantes pobres de várias origens e negros recém-libertos, todos disputando trabalho, moradia e dignidade, mas ao mesmo tempo se misturando, numa cidade que não foi pensada para incluí-los.
O livro acerta em cheio quando coloca as reformas urbanas sob a luz da exclusão: a demolição do cortiço Cabeça de Porco (26 de janeiro de 1893), famílias desalojadas e empurradas para as margens; e, nesse efeito dominó, o surgimento das primeiras favelas, como a Providência, ligada ao pós-Canudos. E quando a narrativa desce para a região portuária e para a Pequena África, dá pra sentir como memória, o quanto cultura e resistência negra foram construindo a alma do Rio e do Brasil, apesar de tudo.
Como leitor (e estudante de Letras), eu gostei muito de como o romance conecta história, memória e literatura sem virar aula, sem pesar no didatismo. É envolvente, humano, e ao mesmo tempo deixa claro um ponto que fica ecoando: o Brasil “moderno” se fez com passos anônimos e muitos desses passos foram negros, mas continuam fora do quadro oficial.