Imagens de uma cidade em transformação: a Missão Artística Francesa e os viajantes que moldaram o imaginário do Rio
O Rio de Janeiro do século XIX registrado por artistas da Missão Francesa e viajantes estrangeiros, revelando a paisagem urbana, o cotidiano e a transformação da cidade do período joanino ao Império. Uma viagem visual pelo Rio de Janeiro do século XIX, da Missão Artística Francesa aos viajantes estrangeiros, revelando a cidade, seu cotidiano e suas transformações históricas.
A Missão Artística Francesa idealizada por Antônio de Araújo de Azevedo (1754-1817), Conde da Barca, que ocupava o cargo de ministro da Marinha e Domínios do Ultramar, foi um grupo de artistas que veio ao Brasil no período de Dom João VI e deixou uma forte influência na arte brasileira.
António de Araújo e Azevedo, o conde da Barca. Em litogravura por Gregório Francisco de Queirós (1768-1845), cerca de 1804. Biblioteca Nacional de Portugal.
Sua vinda foi um marco definitivo das transformações do Brasil naquela época, é uma memória viva do Rio de Janeiro no início do século XIX. O grupo saiu da França em janeiro e chegou ao porto do Rio no dia 26 de março de 1816. Essa iniciativa trouxe para a cidade uma comunidade de artistas que trabalhou diretamente na docência e na produção constante de trabalhos cujos temas principais eram a vida urbana e a paisagem cariocas. E, os nomes que compunham a comitiva de 1816 incluem alguns dos que marcariam definitivamente nossa visão e imaginário sobre o Rio: os pintores Jean-Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay, os escultores Auguste-Maria Taunay e François Bonrepos, o gravador Charles-Simon Pradier, o mecânico François Ovide, o ferreiro Jean-Baptiste Level, o serralheiro Magliori Enout, os curtidores Pelite e Fabre, os carpinteiros Louis Jean e Hyppolite Roy e os arquitetos Louis Uerier, Charles Levasseur e Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny.

Largo do Paço, 1829 — por Jean Baptist Debret.
Aclamação de Dom Pedro I, Imperador do Brasil, no Campo de Sant'Ana, 1835 — por Jean-Baptiste Debret.
Cena de Carnaval do Rio de Janeiro, 1823 — por Jean Baptiste Debret.
Entrada da Baía de Guanabara e da Cidade do Rio a de Janeiro a partir do terraço do Convento de Santo Antônio, 1816 — por Nicolas Antoine Taunay.
Esse grupo completo de profissionais da arte chega em uma cidade cuja cena artística local era limitada a poucos nomes que marcaram época (caso de pintores e entalhadores como José de Oliveira Rosa, Leandro Joaquim, João de Sousa, Manuel da Cunha ou do grande Mestre Valentin) e cuja maioria tinha forte vínculo com a temática religiosa. Outro ponto importante na relação do Rio com as artes nesse período era o fluxo constante de artistas viajantes que vinham em procura de novas paisagens, como foi o caso dos ingleses Emeric Essex Vidal, Maria Graham, Charles Landseer e Henry Chamberlain, ou do austríaco Thomas Ender (membro de outra missão pouco falada, a Missão Austríaca, que acompanhou a comitiva da arquiduquesa e futura imperatriz D. Leopoldina e trouxe, além de Ender, nomes como Johan Baptiste von Spix e Carl Friederich von Martius).
Região do Valongo, 1817 — por Thomas Ender.
O Catete e o Vale das Laranjeiras, 1818 — por Thomas Ender.
Outeiro da Glória e Pão de Açúcar, 1818 — por Thomas Ender.
Tijuca, 1825 — por Thomas Ender.
Baia de Botafogo, 1822 — por Henry Chamberlain.
Mercado, 1822 — por Henry Chamberlain.
Outeiro da Glória, 1822 — por Henry Chamberlain.
Os frutos duradouros da Missão Francesa os incluem como um momento decisivo na construção de saberes, instituições e trabalhos que até hoje ressoam na vida da cidade.
Baía de Guanabara Vista da Ilha das Cobras, 1828 — por Félix Taunay.
Praia Grande de São João de Icaraí, 1828 — por Félix Taunay.
La Barre de Rio de Janeiro, 1825 — por Félix Taunay.

Cascatinha Tsunay na Floresta da Tijuca, 1825 — por Félix Taunay.
Vista da Cidade do Rio de Janeiro tomada da Ilha das Cobras, 1821 — por Félix Taunay.
Centro do Rio de Janeiro visto do Morro do Castelo, 1826 — por Félix Taunay.
Aclamação de Dom Pedro I, 1822 — por Félix Taunay.
Baía de Guanabara Vista da Ilha das Cobras, 1826 — por Félix Taunay.
Vista do Rio de Janeiro, 1828 — por Félix Taunay.
Rua Direita no Rio de Janeiro, 1823 — por Félix Taunay. Vista da Rua Direita (atual Primeiro de Março), a sua direita é a Igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo e atrás dela o Convento do Carmo, ainda com a passarela que o ligava ao Paço Imperial, a qual era usada por Maria I de Portugal para acessar o convento.
Arcos da Lapa, 1820 — por Henry Sargant.
Montanhas da Tijuca, 1822 — por John Clark.
Arcos Lapa, 1825 — por Jacques Étienne Victor Arago.
Rua São Clemente, 1832 — por Willian Smith.
Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, 1844 — por Eduard Hildebrand.

O colégio de meninas dirigido Madame Hitchings, em Botafogo, 1845 — por Alfred Martinet.
Enseada de Botafogo, 1847 — por Adalbert Heinrich Wilhelm, Prinz von Preussen.
Praia Dom Manuel, Cais Pharoux, 1847 — por A. Hastrel.
Desembarque, 1835 — por Johann Moritz Rugendas.
Largo da Carioca, Rio de Janeiro, 1850 — por Eduard Hildebrandt.
Vista do Pao de Açucar, 1859 — por Charles Landseer.
Margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, 1888 — por Nicola Antonio Facchinetti.
Vista da Lagoa Rodrigo de Freitas, 1887 — por Nicola Antonio Facchinetti.
Fortaleza São Sebastião no Morro do Castelo, 1892 — por Gustavo Dall Ara.
Praça XV de Novembro, 1876 — por A. J. Tavares.
Enseada do Botafogo, 1869 — por Nicola Antonio Facchinetti.
Vista da Rua Direita (atual Primeiro de Março) com a Igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo e a Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé a esquerda e Praça D. Pedro II (antigo Largo do Paço e atual Praça XV de Novembro) a direita, Rio de Janeiro, 1865 — por Emil Bauch.
Arcos da Lapa e Santa Tereza, 1861 — por Victor Frond.
Outeiro da Gloria, 1860 — por Victor Facchinetti.
Vista de Sta. Rosa, Niterói, Rio de Janeiro, 1892 — por Nicola Antonio Facchinetti.
Rua São Clemente em Botafogo,1884 — por Bernard Wiegandt.
The Sugar Loaf from Rua São Clemente, Rio de Janeiro, Brazil, 1880 — por Bernhard Wiegandt.
Vista de N. S. da Gloria et da Barra do Rio de Janeiro, 1835 — por Johann Jacob Steinmann.
Negresse de Rio de Janeiro — Nègre & nègresse Dans Une Plantation, cerca de 1824 — por Johann Moritz Rugendas.
Negresse de Rio de Janeiro - Vendeur de fruits et de bibelots à Rio de Janeiro, cerca de 1824 — por Johann Moritz Rugendas.
Quitandeira com imigrantes portugueses, 1882 — por Auguste Petit.
Palácio Imperial de Petrópolis (atual Museu Imperial), cerca de 1855 — por Agostinho José da Mota.
A Hora do Pão, 1889 — por Abigail de Andrade.
Entrada do Passeio Público, 1835 — por Carl Wilhelm von Theremin.
Mureta da Glória Vista do Passeio Público, 1884 — por Rosalbino Santoro.

Panorama da cidade de Rio de Janeiro, 1854 — por Eugène Cicère.
Panorama da Cidade do Rio de Janeiro tomado do Morro de Santo Antônio, cerca de 1855 — por Iluchar Desmons.
Panorama da baía (Tirado de São Cristóvão), 1861 — por Charles Ribeyrolles.
O Paço da Cidade, 1818 — por Karl Wilhelm von Theremin.
Largo do Paço atual Praça XV de novembro, ao fundo, o Paço Imperial, a Capela Imperial e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Litografia de Victor Frond, 1861.
As imagens reunidas nesta postagem não são apenas registros artísticos, mas fragmentos de memória de uma cidade que se transformava rapidamente. Antes das grandes reformas urbanas do final do século XIX e início do XX, o Rio de Janeiro aqui retratado revela uma paisagem híbrida: corte e colônia, modernidade e tradição, escravidão e circulação cosmopolita. A Missão Artística Francesa e os viajantes estrangeiros legaram um acervo visual que ainda hoje molda nosso imaginário sobre a cidade, permitindo que revisitemos um Rio que já não existe, mas que continua a fundamentar nossa compreensão histórica, urbana e cultural do Brasil.
Este conjunto de imagens convida o leitor a observar o Rio de Janeiro para além da nostalgia: como um espaço histórico em disputa, construção e permanência. Quais dessas imagens mais dialogam com a cidade que ainda reconhecemos hoje?
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